"A cocaína irrompeu-me pela narina em forma de ar concentrado depois de ter sido inspirada por uma nota enrolada. De imediato se deu o alarme de químicos. A Cocaína entrou nos meus pulmões sendo recolhidas pelas células sanguíneas, as células enzimáticas e sanguíneas do plasma reconheceram as células da Cocaína como sendo da família dos compostos denominados alcalóides, que provêem das plantas que fabricam substancias fisiologicamente activas como a nicotina, cafeína, estricnina e a morfina. Na desesperada tentativa de proteger o meu corpo daquela súbita invasão, as enzimas do plasma denominadas colesterases atacam de imediato a cocaína, dividindo-a em fragmentos fisiologicamente inertes. Mas a dose era elevada. E em segundos, Ela entrou no lado esquerdo lado esquerdo do meu coração, rapidamente dirigindo-se para toda a parte do meu corpo... A Cocaína começa, os efeitos farmacológicos, a fazer-se sentir quase que instantaneamente. Entranha-se por todo o meu corpo... Então o composto estranho começa a interromper o movimento dos iões de sódio através das membranas das células do coração, parte crítica da função contráctil do músculo do coração. Como resultado a contractilidade e condutividade começam a falhar… Em simultâneo, as células de Cocaína alastram-se pelo meu cérebro. Como se fosse uma faca a cortar manteiga, a Cocaína penetra a barreira do cérebro. Uma vez lá dentro, a Cocaína inunda as células cerebrais indefesas, acumulando-se em espaços chamados sinapses, vias que servem de comunicação das células nervosas. Uma vez alojada nas sinapses, a Cocaína começa a exercer os seus mais perniciosos efeitos. Torna-se um impostor. Por um irónico capricho químico, uma parte da célula da Cocaína e erroneamente reconhecida pelas células nervosas como sendo um neurotransmissor, norepinefrina, epinefrina ou dopamina. Como impostoras disfarçando sua identidade, as moléculas de Cocaína insinuaram-se nas bombas moleculares responsáveis pela absorção destes neurotransmissores, trancando-os e fazendo subitamente parar as bombas. O resultado era previsível. Como a reabsorção dos neurotransmissores estava bloqueada, o efeito estimulante dos neurotransmissores foi preservado. E o estímulo provocou a libertação de ainda mais neurotransmissores numa espiral ascendente de excitação auto-sustentada. Eu era livre o meu pensamento parecia voar, a minha capacidade cognitiva bombardeava mensagens a toda a hora o meu corpo flutuava… As células nervosas que normalmente retomariam a inactividade e a serenidade, começaram a disparar freneticamente. O cérebro transbordou progressivamente de actividade, particularmente nos centros de prazer profundamente implantados abaixo do córtex cerebral. Aqui, a dopamina era o principal neurotransmissor. Com uma perversa predilecção, a cocaína bloqueou as bombas de dopamina e a concentração de dopamina disparou. Circuitos de células nervosas, divinamente interligadas para assegurara sobrevivência da espécie, vibravam de excitação e enchiam os caminhos aferentes que correm em direcção ao córtex de mensagens extáticas. Mas os centros de prazer não eram as únicas áreas do meu cérebro a serem afectadas, apenas algumas das primeiras. Não tardou que o lado mais escuro da invasão de cocaína começasse a exercer o seu efeito. Começaram a ser afectados centros do cérebro filogeneticamente mais velhos e mais caudais, envolvendo funções come coordenação muscular e regulação da respiração. Até a área termorreguladora começou a ser estimulada, bem como a parte do cérebro responsável pelo vómito. Assim, não estava tudo bem. No meio do rompante de impulsos dl prazer, forjava-se uma condição sinistra. Estava a formar-se uma nuvem escura no horizonte, augurando uma horrível tempestade neurológica. A cocaína estava prestes a revelar a sua verdadeira entidade enganadora: uma Amante da Morte, disfarçada com uma aura de prazer ilusório, ou Amor eterno… Troco uma grama de coca por uma noite de sexo … Mas há seres humanos cujo o nome deveria ser Cocaína, sim és tu…"
in Cocaína de Robin Cook
Sem comentários:
Enviar um comentário